2084 é a metáfora sobre o mais absoluto totalitarismo político e religioso alguma vez concebido


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A TRADUÇÃO QUE FALTAVA DO MELHOR LIVRO DO ANO - PRÉMIO GALLIMARD 2015   

Boualem Sansal é pouco conhecido nos países de língua portuguesa porque convenientemente obliterado. Aqui, em Portugal o silêncio foi total apesar de ser um prémio Gallimard (um prémio sempre tão comentado noutras edições...). Durante um ano faltou coragem para traduzir este livro, finalmente temos agora a edição da Quetzal por 17 euros.



A GÉNESE DE 2084    

Boualem Sansal viu chegar os islamistas (actualmente designados por "Radicais Islâmicos") ao seu país, na década de 80 - com a América a aplaudi-los, porque eles enfraqueciam o poder da FLN, que ainda tinha, embora tensas, relações com a França (e, como sempre, os americanos a aproveitar para afastar as antigas potências coloniais, apesar de aliadas).

Em França, e nas ditas «sociedades democráticas», todos rejubilaram, nesses anos, com as vitórias eleitorais dos radicais islâmicos. A História, nesses dias de pré-Primavera, só não se adiantou 20 anos, com os desastres das primaveras árabes, porque os militares argelinos e a sociedade civil, sobretudo mulheres, não aceitaram ser degolados.




Disse Sansal, à Lire: "Quando os islamistas chegaram à Argélia nós estávamos dispostos a aceitá-los (...), a ver neles cidadãos como os outros." Mas os islamistas não entendiam assim. "Eles diziam: nós falamos em nome de Deus e Deus quer tudo."

E então, aquilo que Boualem Sansal e os outros intelectuais (Tahar Djaout, assassinado, Said Mekbel, assassinado...), e os cantores de raï (Matoub Lounes, assassinado...) pensavam ser só uma novidade religiosa, era a morte. "A fé em si mesma, eu não sabia nem sei como criticar, se você [num dia de Verão] diz que tem frio, que lhe posso dizer?"

Mas se do domínio íntimo e pessoal da fé se passa para o regulamento estrito e total do dia a dia de qualquer cidadão, o assunto passava a ser outro.
Os argelinos tiveram a sorte de ter conhecido a dimensão totalitária do islamismo, antes de este se ter tornado a força poderosa e cega dos dias de hoje.

Boualem Sansal, como é notório no seu 2084, é pessimista. O califado otomano, aquele que dominou o Próximo Oriente até ao princípio do século XX, já era. Ele ainda oferecia alternativas aos povos que submetia. Os cultos dos outros, cristãos ou judeus, restritos, os impostos especiais, os muitos cargos oficiais proibidos para os não muçulmanos - mas uma certa aceitação, se houvesse submissão. "Essa concepção do outro, hoje já não é possível", diz Sansal. "Hoje, é como explica o Estado Islâmico: o outro é cadáver, logo que se possa."



QUEM É BOUALEM SANSAL?   

A família de Boualem Sansal vem do Rif, a região ao sul de Marrocos que faz fronteira com a Argélia. Os povos do Rif lutaram contra os espanhóis, depois contra os franceses e, finalmente, contra o rei de Marrocos depois da independência do país. Boualem Sansal nasceu em 1949, na Argélia, na proximidade das montanhas Ouarsenis (em berbere, "nada mais alto").

Formado em engenharia e doutorado em economia, foi demitido de todos os cargos públicos devido aos seus textos e às suas opiniões contra a islamização crescente da Argélia. O seu romance, Le Serment des Barbares, recebeu o prémio do Primeiro Romance e o prémio Tropiques. Os seus livros têm sido censurados e o autor ameaçado; apesar dos perigos, divide o seu tempo entre a Argélia e Paris. Foi já galardoado com o Prémio da Paz (dos livreiros alemães), o Prémio do Romance Árabe, o Grande Prémio da Francofonia, o da Renaissance Française, o RTL-Lire ou o Grande Prémio da Academia Francesa, em 2015, por este romance.


NOTA:
Texto baseado nas nota de descrição do livreiro em http://goo.gl/SbXDdU e no único de dois textos de recensão publicado em Portugal pelo "Destante" em http://destante.blogspot.pt/2016/05/2084-o-fim-do-mundo-de-boualem-sansal.html